‘Tudo Vira CULTSP’: O futuro incerto da Oswald de Andrade

“Antes tinha arte, tinha gente, tinha o mundo. Agora não tem mais nada”, diz ex-aluna da antiga Oficina

A Oswald de Andrade, anteriormente Oficina Cultural Oswald de Andrade, passou por mudanças: tanto de administração quanto de funcionamento. No início de março de 2024, os editais de chamamento para as atividades da instituição foram cancelados, o que encerrou o contrato com a Poiesis. O anúncio da reformulação gerou revolta em artistas e funcionários da instituição, que se preocupam com o sucateamento da instalação. Agora, a instituição estampa em todos os cartazes a marca anunciada no ano anterior: CULTSP.

O espaço que era conhecido pela grande circulação e pluralidade de artistas agora encontra-se vazio. O pátio principal que abrigava exposições e intervenções artísticas ainda permanece aberto, porém desabitado. O Café Colombiano, um espaço que servia cafés e refeições, já não funciona mais, e é possível, inclusive, entrar e perambular livremente pelo ambiente deserto.

Algumas atividades permanecem sendo disponibilizadas ao público, como por exemplo o Cine Clube Oswald de Andrade, uma parceria com o MIS (Museu da Imagem e Som) que exibe filmes gratuitos em um pequeno anfiteatro na entrada do prédio.

Atualmente, ocorre também uma pequena exposição artística, onde grafites feitos por diversos artistas homenageando Rita Lee são exibidos ao público gratuitamente. Esta última, é uma parceria entre a Poiesis e a Fábrica de Cultura, outro projeto cultural gratuito gerido pela organização social Catavento.

Outras obras, entretanto, por mais que identificadas, não se encontram no recinto. É o caso da tela ‘Ainda Arde — chicotadas’, feito em 2018 pela artista Vera Martins; criada na atividade ‘Arte Pública — DESCONSTRUÇÃO E CONSTRUÇÃO DE UMA OBRA’, realizada no edifício.

A notícia sobre a troca de gestão surpreendeu todos, inclusive a Poiesis. ‘Fomos pegos de surpresa. Seremos 42 funcionários em aviso prévio a partir do dia 1o de abril.’, é o que relata Maria Izabel Casanovas, antiga superintendente interina do programa, para a Veja.

Fachada da antiga Oficina Cultural Oswald de Andrade, agora apenas, como estampado no letreiro, ‘Oswald de Andrade’. Foto: Lucas Gines

A Organização Social (OS) era responsável pela administração do prédio e de suas atividades desde 2012, e encerraria seu contrato no final de abril. A Secretária de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo anunciou no dia 15 de fevereiro um edital de convocação em busca de uma nova gestora para o espaço. Após o encerramento do edital de chamamento para as oficinas, a Secretária anunciou também, no dia 14 de março, seus planos para o futuro.

Os cursos ofertados anteriormente nas Oficinas permeavam diversos campos do fazer artístico como moda, costura, dança, escrita, teatro e música. Todos gratuitos e com uma duração reduzida em comparação com grandes cursos de formação. No lugar dessas atividades, a Secretaria de Cultura do Estado pretende reformular o conteúdo pragmático da instituição e seus objetivos. A partir de agora, os novos projetos oferecidos no prédio e pela Secretária de Cultura recebem a nova marca da pasta estadual, a CultSP Pro: Escolas Profissionais e de Empreendedores da Cultura.

A remodelação chamou atenção de políticos e da classe artística. O deputado Carlos Giannazi, do PSOL, protocolou um requerimento intimando a Secretaria de Cultura, Indústria e Economia Criativa, Marília Marton, a responder à Comissão Legislativa sobre as origens e motivos da reestruturação. A ação foi apoiada pelo movimento ‘Fica Oficinas Culturais’, feito por artistas e frequentadores das Oficinas, que cunhavam slogans como ‘Imagine SP sem cultura’ nas movimentações realizadas entre 19 e 23 de março. A mais noticiada ocorreu dia 20, em frente às escadarias do Theatro Municipal.

Mesmo após protestos e mobilizações, a Secretária de Cultura prosseguiu com seus planos e optou pelo encerramento do contrato de gestão com a Poiesis. Assim, levou adiante seus planos de transformação para o espaço: tanto na infraestrutura, quanto nos projetos ofertados pelo governo.

Neste momento, a comunidade artística segue sem comunicados oficiais referentes ao futuro das atividades na edificação. As informações disponibilizadas pela CultSP são consideradas escassas e confusas, causando incertezas, até mesmo aos funcionários que ainda permanecem no local. Foi o que relatou uma colaboradora, que terá sua identidade preservada. Segundo ela, o lugar ainda está sob supervisão da Poiesis. Isso, contudo, foi negado posteriormente por outro funcionário da CULTSP que foi questionado ainda no local. A mesma funcionária também afirmou que a Oswald de Andrade contava, temporariamente, com funcionários da Associação Paulista de Amigos da Arte (APAA). Essa outra OS gerencia, desde 2023, a CultSP Play entre outros veículos e espaços da pasta.

Segundo funcionários da Fábrica de Cultura, nada oficial foi relatado sobre o destino da instituição; porém as duas organizações já presentes no local, a própria Fábrica e a Poiesis, a convite da Secretaria, foram autorizadas a expor projetos de alunos e pequenas exposições no espaço até o mês de julho.

Se a confusão referente a mudança permanece entre os funcionários, o público antes frequentador do prédio se encontra mais confuso ainda. Nély Sueli, residente do bairro do Bom Retiro, afirma já ter participado de oficinas e projetos na Oswald ao longo dos anos. A aposentada originalmente se dirigiu ao espaço no intuito de pegar um livro, porém, por falta de funcionários para cuidar da biblioteca, que se encontra trancada, foi impedida. Em meio ao estado atual do prédio e a situação, Sueli diz que “antes tinha arte, tinha gente, tinha o mundo. Agora não tem mais nada”.

Ainda contribuindo para a atmosfera de incertezas, a Secretaria da Cultura negou entrevista para o desenvolvimento da reportagem, afirmando que não seria possível alinhar uma entrevista sobre o tema. Ao recorrer aos veículos de comunicação da antiga Oficina, como site e redes sociais, descobriu-se que todos estes foram retirados do ar sem quaisquer explicações.

De acordo com Douglas, funcionário da CultSP encaminhado pela secretária na visita a Oswald de Andrade, o prédio está atualmente sob os cuidados da Secretária de Cultura, que está à procura de um novo gestor e auxilia a Poiesis na transferência de poder e atividades até então. Ainda é possível, segundo eles, fazer a reserva de salas e espaços dentro do prédio. Por ser uma edificação pública todos podem solicitar o uso destes espaços, mediante assinatura de um documento simples.

A Associação Pró-Dança de São Paulo ainda permanece no prédio. As atividades da SP Escola de Dança seguem ocorrendo normalmente sem serem interrompidas. Também ocorrem outras atividades e aulas advindas dos projetos das Oficinas Culturais que já ocorriam antes de toda a mudança. Funcionários da Poiesis seguem no prédio, cuidando das propostas vigentes e finalizando sua permanência na Oswald de Andrade.

A sessão pública de 04 de junho sobre a administração da CultSP Pro, que contou com representantes da Poiesis, Instituto Arte Ensina e Instituto de Desenvolvimento e Gestão, determinou que o resultado da Convocação Pública deve ser divulgado até 05 de julho deste ano. Paralelamente, o requerimento do deputado Carlos Giannazi, segue como pauta para deliberação conclusiva, conforme o caderno Legislativo do Diário Oficial de São Paulo, de 11 de junho.

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